O Brasil tem hoje um dos arcabouços legais mais robustos contra crimes digitais. As Leis 14.155/2021 (fraudes eletrônicas) e 14.132/2021 (stalking/perseguição), além da Lei 12.737/2012 (Carolina Dieckmann — invasão), reforçaram o tipificação e as penas. Este guia explica os principais crimes digitais, como agir como vítima e como se defender de acusação.
Estelionato Eletrônico (CP art. 171 §2º-A)
Incluído pela Lei 14.155/2021: “A pena é de reclusão, de 4 a 8 anos, e multa, se a fraude é cometida com a utilização de informações fornecidas pela vítima ou por terceiro induzido a erro por meio de redes sociais, contatos telefônicos ou envio de correio eletrônico fraudulento, ou por qualquer outro meio fraudulento análogo.”
Pena qualificada em relação ao estelionato comum (reclusão de 1 a 5 anos) — a sociedade considera mais grave a fraude pelas plataformas digitais devido à amplitude de alcance e dificuldade de rastreamento.
Furto Qualificado por Dispositivo Eletrônico (CP art. 155 §4º-B)
Subtração de coisa alheia móvel mediante uso de dispositivo eletrônico ou informático, conectado ou não à internet, com ou sem violação de mecanismo de segurança ou utilização de programa malicioso. Pena: reclusão de 4 a 8 anos + multa. Aplica-se aos casos de furto via aplicativos bancários, transferências via Pix mediante invasão, etc.
Invasão de Dispositivo (CP art. 154-A — Lei 12.737/2012)
Invadir dispositivo informático de outrem, conectado ou não à internet, mediante violação indevida de mecanismo de segurança, com o fim de obter, alterar ou destruir dados ou informações sem autorização do titular do dispositivo ou para instalar vulnerabilidades. Pena: detenção 1 a 4 anos + multa.
Stalking / Perseguição (CP art. 147-A — Lei 14.132/2021)
Perseguir alguém, reiteradamente e por qualquer meio, ameaçando-lhe a integridade física ou psicológica, restringindo-lhe a capacidade de locomoção ou, de qualquer forma, invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade. Pena: reclusão 6 meses a 2 anos + multa.
Como Agir Como Vítima
1. Preservar Provas
Imediatamente: capturas de tela (com data/hora visível), salvar mensagens originais (não apenas screenshots — exportar conversa do WhatsApp), e-mails com cabeçalho completo (cabeçalho técnico revela origem). Não responder/apagar — pode contaminar a prova.
2. Notificar Banco / Plataforma Imediatamente
Em caso de fraude bancária: contestar transação no aplicativo do banco (Pix tem mecanismo de devolução em casos de fraude reconhecida — Resolução BCB 6/2020 art. 31-A). Reportar à plataforma (Facebook, Instagram, WhatsApp) abuso/perfil falso.
3. Boletim de Ocorrência
Registrar BO na delegacia comum ou, preferencialmente, na Delegacia Especializada em Crimes Cibernéticos (DRCC) — em Vitória, fica na Av. Marechal Campos, 1.236, Bonfim. Apresentar todas as provas digitais preservadas.
4. Ação Civil Paralela
Independentemente da via criminal, ação civil contra o banco (em fraudes bancárias — Súmula 479 STJ: responsabilidade objetiva), contra autor identificável (indenização por dano moral/material), contra plataforma (em casos de omissão indevida).
Defesa em Acusação de Crime Digital
1. Cadeia de Custódia da Prova Digital (CPP arts. 158-A a 158-F)
A Lei 13.964/2019 estabeleceu a cadeia de custódia obrigatória. Prova digital sem cadeia documentada (hash, registro de acesso, integridade preservada) pode ser nulificada. Defesa avalia: integridade dos dispositivos apreendidos, registros de quem acessou, documentação dos atos periciais.
2. Autoria Não Comprovada
IP, MAC address, número de celular — não identificam diretamente a pessoa. Defesa: questionar quem efetivamente operou o dispositivo, possível uso por terceiros (acesso wifi, dispositivo compartilhado, conta hackeada).
3. Falsa Identificação ou Conta Hackeada
Defesa baseada em prova de que a conta foi invadida (Boletim de Ocorrência preliminar, denúncia à plataforma, perícia técnica), de que o IP é de área pública (Wi-Fi de café, biblioteca), de que houve fishing prévio com captação de credenciais.
Perguntas Frequentes
Cai golpe do Pix — o banco devolve?
Conforme circunstâncias. O Pix tem mecanismo de devolução (MED) para casos de fraude reconhecida ou erro operacional, gerenciado pelo BACEN. Banco tem responsabilidade objetiva (Súmula 479 STJ) — em casos de falha de segurança, é devida indenização.
Ex-parceiro postou foto íntima minha — qual crime?
Lei 13.718/2018 — divulgação não autorizada de cena de nudez ou ato sexual (CP art. 218-C). Pena 1 a 5 anos + agravantes (com aumento se cometido por ex-parceiro, alcance amplo, etc.). Em paralelo: ação civil por dano moral + retirada do conteúdo (Lei 12.965/2014 — Marco Civil).
Stalking persiste após bloqueio em todas as redes — o que fazer?
Configura crime do CP art. 147-A. Registro de BO + medidas protetivas (se incidir Lei Maria da Penha — art. 22 da Lei 11.340/2006). Cabe pedido de medidas restritivas mesmo sem violência física consumada.
Como funciona quebra de sigilo telemático?
Por ordem judicial (CPP art. 13-B, incluído pela Lei 12.850/2013 e jurisprudência STF). Provedores são obrigados a fornecer dados cadastrais e de tráfego. Em algumas situações de extrema urgência, há previsão de pedido direto sem prévia ordem judicial.
Sou acusado de invasão de dispositivo — pena?
Detenção de 1 a 4 anos (CP art. 154-A). Pode haver substituição por medida alternativa em primários, sem violência. ANPP (Acordo de Não Persecução Penal — CPP art. 28-A) é alternativa.
Precisa de orientação?
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Fontes oficiais
Lei 14.155/2021 (Fraudes Digitais) · Lei 14.132/2021 (Stalking) · Lei 12.737/2012 (Carolina Dieckmann) · Lei 12.965/2014 (Marco Civil)